Uma doença invisível que gera prejuízos milionários
A mastite bovina é considerada uma das enfermidades mais importantes da cadeia leiteira mundial. Embora muitos produtores associem a doença apenas aos casos em que o leite apresenta alterações visíveis, especialistas alertam que o maior problema está justamente na forma silenciosa da enfermidade: a mastite subclínica.
Segundo o professor doutor Igor Mansur Muniz, essa condição não apresenta sinais aparentes ao produtor. O leite mantém aparência normal, o animal continua se alimentando e, muitas vezes, não demonstra qualquer sintoma perceptível.
No entanto, internamente, a glândula mamária está sendo comprometida por processos infecciosos capazes de reduzir a produtividade, afetar a composição nutricional do leite e gerar perdas econômicas consideráveis.
“Para cada caso clínico observado na propriedade, existem dezenas de casos subclínicos que passam despercebidos”, destacou o pesquisador durante a entrevista.
Os dados obtidos pela pesquisa desenvolvida pela UNIR são preocupantes. Em diversas propriedades visitadas pela equipe, mais de 90% dos animais avaliados apresentavam mastite subclínica, sem que os produtores tivessem conhecimento da situação.
Qualidade do leite também é afetada
Além de reduzir a produção leiteira, a mastite interfere diretamente na qualidade final do produto.
As bactérias presentes na glândula mamária utilizam os nutrientes do leite para sobreviver e se multiplicar. Com isso, proteínas, gorduras e carboidratos são degradados, diminuindo o valor nutricional do alimento.
Na prática, isso significa menor rendimento industrial para a produção de derivados como queijo, manteiga e iogurte.
O prejuízo não fica restrito ao produtor. A indústria processadora também sofre impactos, enquanto o consumidor pode acabar pagando mais caro por um produto com menor qualidade nutricional.
Teste simples pode evitar grandes perdas
Uma das principais recomendações apresentadas pelos pesquisadores é a utilização frequente do California Mastitis Test (CMT), exame simples, rápido e de baixo custo que permite identificar precocemente os animais infectados.
De acordo com a acadêmica Ysabelle Camilla Tomaz Correia, muitos produtores desconhecem a ferramenta, apesar de sua eficácia.
O teste pode ser realizado diretamente na propriedade e permite detectar casos de mastite subclínica antes que a doença cause danos mais severos.
A recomendação dos especialistas é que o monitoramento seja realizado periodicamente, possibilitando intervenções mais rápidas e eficientes.
Higiene ainda é um dos maiores desafios
As visitas técnicas realizadas pela equipe da UNIR identificaram situações que demonstram a necessidade de maior atenção aos protocolos de higiene dentro das propriedades.
Entre os problemas encontrados estão falhas na limpeza dos equipamentos de ordenha, ausência de pontos de água para higienização das mãos, manejo inadequado dos animais e até a presença de galinhas, cães, gatos e suínos circulando livremente nos currais.
Segundo os pesquisadores, pequenas mudanças de manejo podem reduzir drasticamente os índices da doença.
A correta limpeza dos tetos, a higienização das mãos dos ordenhadores, a manutenção dos equipamentos e a chamada “ordem de ordenha” — que consiste em ordenhar primeiro os animais saudáveis e deixar os infectados por último — estão entre as medidas mais eficazes para controlar a mastite.
Resistência antimicrobiana preocupa especialistas
Se os impactos da mastite já são expressivos, um segundo problema identificado pela pesquisa amplia ainda mais a preocupação dos especialistas: a resistência bacteriana aos antibióticos.
Durante os estudos laboratoriais, foram avaliadas bactérias isoladas em propriedades leiteiras da região. Os resultados mostraram resistência significativa a diversos medicamentos tradicionalmente utilizados no tratamento da doença.
O cenário acompanha uma tendência observada em todo o mundo.
A resistência antimicrobiana é considerada atualmente uma das maiores ameaças à saúde global, uma vez que reduz a eficácia dos tratamentos e dificulta o combate a infecções.
Segundo o professor Igor Mansur Muniz, o uso inadequado dos medicamentos veterinários contribui diretamente para o agravamento do problema.
Muitas vezes os produtores iniciam tratamentos sem diagnóstico adequado, utilizam medicamentos incorretos ou interrompem o uso antes do período recomendado.
Essa prática favorece a sobrevivência de bactérias mais resistentes, que continuam se multiplicando e tornando os tratamentos futuros cada vez mais difíceis.
Problema ultrapassa os limites das propriedades rurais
Os especialistas alertam que a resistência bacteriana não afeta apenas os animais.
Microrganismos resistentes podem circular entre animais, seres humanos e o meio ambiente, tornando-se uma preocupação de saúde pública.
Por esse motivo, cresce a defesa por maior controle na comercialização de antibióticos veterinários e pela ampliação da assistência técnica aos produtores rurais.
“A resistência antimicrobiana não é apenas um problema da medicina veterinária. É uma questão mundial que exige atenção imediata”, ressaltou o pesquisador.
Universidade e produtor trabalhando juntos
Além dos resultados científicos, a pesquisa evidencia a importância da aproximação entre universidade e setor produtivo.
Por meio das visitas técnicas, estudantes e professores levam informações atualizadas aos produtores e, ao mesmo tempo, ampliam seus conhecimentos a partir da realidade encontrada no campo.
A troca de experiências fortalece a produção científica, contribui para o desenvolvimento regional e oferece soluções práticas para desafios enfrentados diariamente pelos pecuaristas.
A expectativa é que iniciativas como essa continuem ampliando o acesso ao conhecimento técnico e promovendo melhorias na qualidade do leite produzido em Rondônia.
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