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RURALCAST | Café indígena de Rondônia une ciência, floresta e qualidade reconhecida no Brasil

Durante o Dia de Campo Paiter Suruí, o pesquisador da Embrapa Henrique Alves explicou como a união entre ciência, conhecimento indígena e preservação da floresta

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No meio da floresta, entre lavouras de café e o movimento dos produtores reunidos para o Dia de Campo Paiter Suruí, o assunto ia muito além da produção. O que se discutia ali era um modelo de desenvolvimento que une conhecimento técnico, preservação ambiental e respeito à cultura indígena.

Foi nesse cenário, na Comunidade Lapetanha, dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal, que o RURALCAST, podcast apresentado por Adalto Costa, recebeu o pesquisador da Embrapa Rondônia, Henrique Alves, um dos maiores especialistas em colheita, pós-colheita e qualidade dos Robustas Amazônicos. A conversa mostrou como um trabalho iniciado há poucos anos ajudou a colocar o café produzido pelos povos Paiter Suruí entre os mais premiados do Brasil.

Henrique acompanha esse projeto desde 2018. Segundo ele, a aproximação começou um ano antes, quando lideranças indígenas procuraram a Embrapa em busca de conhecimento para melhorar a qualidade do café produzido nas aldeias.

"Eles falaram que o café tinha muito potencial e que gostariam de trabalhar com a Embrapa para aprimorar isso."

A proposta começou com apenas três famílias. O resultado apareceu logo na primeira safra. Um dos produtores conquistou o segundo melhor café de Rondônia e ficou entre os vinte melhores do país. O reconhecimento chamou a atenção da indústria e abriu um novo caminho para o projeto.

Hoje, a realidade é bem diferente.

São 169 famílias, pertencentes a sete etnias e distribuídas em duas terras indígenas de Rondônia, produzindo cafés especiais com acompanhamento técnico da Embrapa e de parceiros do setor.

Café que gera renda e protege a floresta

Ao longo da entrevista, Henrique destacou que o projeto vai muito além da qualidade da bebida. Para ele, a cafeicultura também cumpre um papel ambiental importante.

Quase toda a floresta preservada nessas regiões está dentro das terras indígenas, e criar oportunidades de renda compatíveis com esse ambiente fortalece a conservação dessas áreas.

"Quando eu tenho atividades econômicas compatíveis com a floresta dentro das aldeias, eu estou ajudando a preservar essas áreas."

Segundo o pesquisador, aproximadamente 56% das florestas preservadas de Rondônia estão em terras indígenas, o que torna essas comunidades fundamentais para a conservação ambiental.

O café também quebra preconceitos

Outro aspecto destacado por Henrique é o impacto social do projeto.

Na avaliação dele, os resultados alcançados pelos produtores indígenas ajudam a desconstruir uma visão equivocada sobre o trabalho desenvolvido dentro das aldeias.

"Eles mostram que podem ser empreendedores, que são trabalhadores e que, quando têm tecnologia e ciência, conseguem ir ainda mais longe."

Para o pesquisador, a cafeicultura passou a ser uma vitrine não apenas da qualidade dos Robustas Amazônicos, mas também da capacidade de organização e inovação das comunidades indígenas.

O diferencial pode estar na própria floresta

Henrique revelou que a pesquisa também busca entender por que os cafés produzidos nas terras indígenas apresentam características sensoriais diferentes.

Os estudos apontam que esses cafés possuem maior riqueza mineral e aromas mais complexos, mas ainda não existe uma resposta definitiva sobre a origem dessas características.

Entre as hipóteses avaliadas estão o microclima formado pela floresta, a maior presença de polinizadores, a microbiota do solo e até mesmo a forma como os indígenas conduzem todo o processo de produção.

"Pode ser o ambiente, pode ser o saber fazer do indígena ou pode ser o conjunto de tudo isso."

O tempo da floresta ajuda a produzir cafés melhores

Durante a conversa, Henrique fez uma observação que chamou atenção.

Segundo ele, trabalhar com produtores indígenas, em alguns aspectos, chega a ser mais simples do que com produtores convencionais.

Isso porque muitos não carregam antigos hábitos de manejo e absorvem com mais facilidade as técnicas apresentadas pela equipe da Embrapa.

Além disso, existe uma relação diferente com o tempo.

Os produtores aguardam naturalmente o ponto ideal de maturação dos frutos e realizam uma colheita seletiva, fatores decisivos para a produção de cafés especiais.

Muito além da lavoura

A cafeicultura também abriu novas oportunidades para os jovens das aldeias.

Henrique citou o exemplo da primeira barista indígena do Brasil e de jovens que hoje trabalham com torra, degustação, comercialização e turismo ligado ao café.

Segundo ele, essa transformação ajuda a reduzir o êxodo rural e cria novas perspectivas dentro das comunidades.

"Os jovens não querem mais sair. Eles querem se profissionalizar cada vez mais no café."

"O café pode salvar a floresta"

Entre todas as reflexões apresentadas durante a entrevista, uma delas resumiu a visão construída pela Embrapa ao longo dos últimos anos.

Henrique defende que preservar a floresta também passa por criar oportunidades para quem vive nela.

"O café pode salvar a floresta. Ele é um aliado para salvar a floresta."

Para ele, quando as famílias conseguem gerar renda de forma sustentável, diminuem as chances de recorrer a atividades predatórias e aumentam as condições para manter a floresta preservada.

Ciência compartilhada no campo

Durante o Dia de Campo Paiter Suruí, a equipe da Embrapa levou aos produtores orientações sobre boas práticas de colheita, pós-colheita e processamento dos cafés especiais.

Mais do que apresentar novas técnicas, o objetivo foi ouvir os produtores, esclarecer dúvidas e fortalecer a troca de experiências entre pesquisadores e comunidades indígenas.

Henrique acredita que esse diálogo permanente é uma das principais razões para o sucesso do projeto.

Ao encerrar a entrevista ao RURALCAST, ele reforçou que a Embrapa continuará trabalhando para ampliar o acesso ao conhecimento e convidou produtores e interessados a utilizarem gratuitamente os materiais técnicos disponibilizados pela instituição.

O episódio mostra que, na Terra Indígena Sete de Setembro, ciência e tradição caminham lado a lado. Enquanto os pesquisadores ajudam a aperfeiçoar o manejo e a qualidade do café, os povos Paiter Suruí demonstram que produzir com excelência também pode ser uma forma de preservar a floresta, fortalecer a cultura indígena e construir oportunidades para as próximas gerações.

Assista ao episódio completo:

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