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ASSISTA: Fábio Porto debate rastreabilidade de mudas, regularização ambiental e futuro da cafeicultura em Rondônia

Especialista destacou o protagonismo de Alto Alegre dos Parecis na produção de mudas, alertou para os desafios hídricos e defendeu tecnologia, assistência técnica e organização dos produtores

Redação Olá Rondônia / RuralCast
Foto: Olá Rondônia / RuralCast

Agricultura e meio ambiente precisam caminhar juntos

A relação entre produção agrícola, regularização ambiental e desenvolvimento sustentável foi o tema central de mais uma edição do RuralCast. Apresentado por Adalto Costa, o podcast do Grupo Amazun recebeu Fábio Porto, diretor de Licenciamento e Gestão Ambiental da Prefeitura de Alto Alegre dos Parecis.

Fábio Porto é tecnólogo em Gestão Ambiental, especialista em Gestão em Vigilância Sanitária e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia, o PPGEDAM, da Universidade Federal do Pará.

Suas pesquisas concentram-se em governança ambiental, desenvolvimento territorial, rastreabilidade da produção de mudas de Coffea canephora, indicações geográficas e bioeconomia amazônica. Sua dissertação propõe um modelo municipal de rastreabilidade e boas práticas para a produção de mudas de café.

Durante o RuralCast, o convidado explicou que começou a atuar diretamente nas áreas de agricultura e meio ambiente em 2014. Com o avanço dos trabalhos, passou a compreender de forma mais ampla como a gestão ambiental influencia a segurança, a produtividade e a competitividade das propriedades rurais.

“Um produtor legalizado, regularizado e com todas as licenças necessárias está mais amparado e seguro na sua produção.”

Experiência na representação ambiental

Fábio Porto também exerceu a presidência da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente em Rondônia, a ANAMMA-RO. No âmbito nacional, representou o Bioma Amazônico e integrou o Conselho Nacional do Meio Ambiente, o CONAMA.

Essa experiência permitiu que ele conhecesse a realidade de diferentes municípios rondonienses e participasse de debates com órgãos e instituições nacionais.

Segundo o entrevistado, muitas secretarias municipais de Meio Ambiente ainda funcionam com limitações de pessoal, orçamento e estrutura técnica. Essa fragilidade pode comprometer o atendimento aos agricultores e atrasar processos importantes para o desenvolvimento das atividades produtivas.

O convidado também defendeu a superação da ideia de que agricultura e preservação ambiental são forças opostas.

“Agricultura e meio ambiente precisam ter uma ligação. Rondônia possui um grande potencial agrícola e também um grande potencial ambiental, e os dois devem caminhar juntos.”

Produzir sem ampliar o desmatamento

Na avaliação de Fábio Porto, Rondônia possui áreas produtivas capazes de gerar mais alimentos e renda por meio do uso de tecnologia, manejo adequado e planejamento, sem que seja necessário avançar sobre novas áreas de floresta.

“Dá para produzir sem desmatar. Dá para produzir com o que temos hoje.”

O entrevistado apontou a tecnologia como um dos fatores determinantes para o futuro da cafeicultura, da pecuária, da piscicultura e de outras atividades econômicas desenvolvidas no campo.

Para Fábio, o produtor que não acompanhar as transformações tecnológicas poderá enfrentar dificuldades para manter a produtividade e atender às novas exigências do mercado.

“Se você não utilizar tecnologia, vai ficar para trás. Esse é um dos grandes gargalos da produção agrícola.”

Regularização fundiária e ambiental

A regularização ambiental dos imóveis rurais foi um dos principais assuntos abordados na entrevista. Segundo Fábio, a falta de documentos fundiários ainda representa um grande obstáculo para muitos produtores de Rondônia.

A ausência de títulos, as divergências na delimitação das áreas e as inconsistências no Cadastro Ambiental Rural, o CAR, dificultam a análise e a regularização das propriedades.

Entre os problemas mais comuns estão informações incorretas sobre a Reserva Legal, as Áreas de Preservação Permanente e os limites dos imóveis.

Em muitos casos, o produtor acredita que sua situação está regular porque realizou o cadastro. Entretanto, divergências podem permanecer no sistema e somente serem descobertas no momento de vender a produção, acessar crédito ou emitir documentos.

“Muitas vezes, o produtor não sabe que existe um passivo ambiental na propriedade.”

O convidado alertou que essas inconsistências poderão provocar restrições comerciais à medida que os sistemas de rastreabilidade forem ampliados. O problema já afeta algumas cadeias produtivas e, na avaliação dele, deverá alcançar também a comercialização do café.

Antecipar o problema facilita a solução

Fábio Porto recomendou que o agricultor procure a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, a Emater ou profissionais habilitados antes que uma irregularidade resulte em bloqueio ou penalidade.

“Quanto mais cedo o produtor descobrir a pendência, mais cedo conseguirá resolver.”

Segundo ele, determinadas inconsistências podem ser corrigidas com a retificação do CAR e a apresentação de documentos técnicos. Quando o produtor deixa para buscar atendimento somente após o surgimento de uma restrição, o processo pode se tornar mais caro e demorado.

Programas de recuperação ambiental e regularização desenvolvidos pelo Governo de Rondônia, pela Emater e por instituições parceiras também foram citados como alternativas para auxiliar as famílias rurais.

“O produtor precisa parar de esperar o problema chegar à porta. Ele precisa antecipar e tentar resolver.”

Alto Alegre dos Parecis se destaca na produção de mudas

Durante o RuralCast, Fábio Porto apresentou números que demonstram a importância de Alto Alegre dos Parecis para a expansão da cafeicultura.

Conforme as informações mencionadas pelo entrevistado, o município possui 23 viveiros ativos e regularizados no Registro Nacional de Sementes e Mudas, o RENASEM.

No ciclo 2024/2025, os viveiros locais produziram aproximadamente 5,7 milhões de mudas de café. Esse volume teria representado cerca de 30% da produção estadual no período.

“Alto Alegre dos Parecis é hoje o maior produtor de mudas de café de Rondônia.”

Parte das mudas permanece no próprio município, enquanto o restante é comercializado para outras regiões de Rondônia e para estados como Mato Grosso, Acre, Amazonas, Bahia e Espírito Santo.

O movimento representa uma inversão histórica. Rondônia, que anteriormente buscava materiais genéticos em outros estados, passou a fornecer mudas, brotos e estacas da genética desenvolvida e adaptada às condições amazônicas.

“Hoje Rondônia está exportando sua genética amazônica.”

A importância da rastreabilidade das mudas

Apesar do crescimento da produção, Fábio alertou para uma lacuna existente no sistema: o agricultor ainda enfrenta dificuldades para consultar publicamente a origem exata do material genético adquirido.

Mesmo quando o viveiro está devidamente registrado, algumas informações detalhadas sobre a planta matriz, o jardim clonal e a propriedade de origem não estão disponíveis em um banco de dados público e acessível.

“Hoje, o produtor não possui segurança completa sobre o material que está levando. A segurança ainda depende muito da confiança no viveirista.”

Fábio ressaltou que a observação não retira a credibilidade dos viveiros regularizados. Trata-se de uma deficiência mais ampla no sistema de informações, identificada por ele durante as pesquisas realizadas no mestrado.

“Se eu quiser rastrear aquela muda até a matriz genética, hoje não consigo fazer isso por meio de um banco público.”

A proposta apresentada em sua dissertação busca justamente preencher essa lacuna. O modelo prevê um sistema municipal capaz de registrar a procedência das mudas e disponibilizar dados que permitam ao agricultor verificar o que está comprando.

Escolha errada pode comprometer toda a lavoura

A rastreabilidade é considerada estratégica porque a implantação de uma lavoura exige investimento elevado e produz efeitos durante vários anos.

Uma muda de origem desconhecida ou inadequada às condições da propriedade pode apresentar baixa produtividade, maior vulnerabilidade a doenças ou dificuldade de adaptação ao solo e ao clima.

“Uma escolha errada da genética no início do plantio vai causar transtornos no futuro.”

O sistema proposto por Fábio permitiria identificar a origem do clone, localizar sua planta matriz e acompanhar o desempenho do material nas propriedades. Também possibilitaria emitir alertas quando determinada genética apresentasse maior incidência de pragas ou doenças.

Essas informações ajudariam técnicos, gestores públicos e produtores a tomarem decisões baseadas em dados.

Projeto municipal de acompanhamento

Fábio Porto relatou que Alto Alegre dos Parecis vem avançando na construção de uma política voltada à qualidade das mudas e à permanência da agricultura familiar no campo.

Segundo o entrevistado, o município adquiriu e distribuiu gratuitamente cerca de 100 mil mudas de café para agricultores familiares. Para participar, os produtores precisaram atender a critérios como análise de solo, implantação do sistema de irrigação e acompanhamento por engenheiro agrônomo.

Os beneficiários também assumiram o compromisso de seguir as orientações técnicas fornecidas pelo município.

As áreas atendidas poderão formar jardins clonais monitorados. Com a localização por GPS e o acompanhamento periódico, o município poderá registrar informações sobre produtividade, sanidade, pragas, doenças e adaptação das diferentes genéticas.

A intenção é estruturar futuramente um viveiro municipal e utilizar as propriedades acompanhadas como fontes seguras de material genético.

Diversidade genética reduz riscos

O convidado também alertou para os riscos de concentrar uma lavoura em apenas uma genética. Caso o clone escolhido apresente suscetibilidade a determinada doença, praga ou condição climática, toda a produção poderá ser comprometida.

“A variedade genética dentro do plantio é importantíssima.”

A diversificação precisa, entretanto, ser realizada com planejamento. Algumas genéticas possuem maturação precoce, enquanto outras são tardias. Quando materiais diferentes são plantados sem organização na mesma linha, a colheita pode reunir frutos verdes, maduros e passados, reduzindo a qualidade final.

Por isso, Fábio defendeu que a escolha e a distribuição dos clones sejam definidas com acompanhamento profissional.

“A Secretaria de Agricultura precisa estar de mãos dadas com os produtores que estão iniciando o plantio.”

Água será um dos grandes desafios

A disponibilidade hídrica foi apontada como uma das principais preocupações para o futuro do café robusta amazônico.

Fábio explicou que a utilização de irrigação, manejo, adubação e tecnologia permitiu um grande aumento da produtividade. Ele citou propriedades que alcançaram até 220 sacas por hectare sob condições favoráveis.

No entanto, a expansão das áreas cultivadas também eleva a demanda por água.

“A água será uma questão que poderá gerar conflitos entre produtores no futuro.”

O entrevistado destacou a necessidade de regularizar reservatórios, pontos de captação, poços e sistemas de irrigação. Para utilizar os recursos hídricos com segurança, o agricultor deve procurar os órgãos responsáveis, contratar assistência técnica e solicitar as licenças e outorgas necessárias.

“Deixar para regularizar depois é uma ilusão. Futuramente, o produtor poderá ser responsabilizado.”

Barraginhas e recarga do lençol freático

Entre as soluções apresentadas esteve o projeto Barraginhas, levado a Alto Alegre dos Parecis em 2024. A tecnologia utiliza o relevo das propriedades para criar pequenas bacias de contenção fora das Áreas de Preservação Permanente.

Durante o período chuvoso, essas estruturas armazenam a água que escoaria pela superfície, reduzindo processos erosivos e favorecendo a infiltração no solo.

“Em vez de a água ir embora e causar erosão, ela fica nas bacias e faz a recarga do lençol freático.”

Uma propriedade foi utilizada como unidade demonstrativa no município. Segundo os relatos compartilhados por Fábio, houve melhora no potencial hídrico da área.

O convidado também mencionou iniciativas de recuperação de nascentes e defendeu a ampliação das tecnologias capazes de conservar água dentro das propriedades.

Mudanças climáticas exigem preparação

Fábio avaliou que os períodos de seca e calor extremo tendem a se tornar mais frequentes em Rondônia. Na visão do entrevistado, produtores, municípios e instituições precisam se preparar para um cenário climático mais desafiador.

“Esse será o novo normal. Os fenômenos de seca estão ficando mais frequentes.”

O entrevistado relatou a preocupação das administrações municipais com os riscos de queimadas, desmatamento ilegal, escassez hídrica e redução da produção agrícola.

No caso de Alto Alegre dos Parecis, ele mencionou uma estimativa municipal de impacto econômico entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões em um eventual cenário de seca severa e queda da produção. A projeção apresentada durante o podcast é uma avaliação preventiva e depende da confirmação das condições climáticas futuras.

Para reduzir os impactos, o município vem testando alternativas como modificadores de solo, matéria orgânica e cobertura vegetal, técnicas que podem contribuir para conservar a umidade e diminuir a evaporação.

Cafeicultura exige profissionalização

Na avaliação de Fábio Porto, a valorização do café atraiu novos investidores para a atividade. Entretanto, o preço elevado não elimina os riscos relacionados ao clima, ao manejo e aos custos de produção.

O verdadeiro cafeicultor, segundo ele, é aquele que conhece os ciclos da atividade e permaneceu produzindo mesmo nos períodos de baixa valorização.

O cenário futuro deverá exigir planejamento financeiro, segurança hídrica, manejo do solo, genética adequada e assistência técnica permanente.

“A partir dos próximos ciclos, vamos perceber quem realmente está preparado para permanecer na atividade.”

Associativismo fortalece o produtor

A organização coletiva também foi apontada como ferramenta indispensável. Fábio afirmou que o agricultor integrado a uma associação ou cooperativa bem administrada possui melhores condições de acessar informações, assistência técnica, equipamentos, tecnologias e políticas públicas.

“Produtor sozinho não consegue muita coisa.”

As associações podem buscar recursos para adquirir insumos, equipamentos e tecnologias de conservação do solo e da água. Também podem contratar profissionais para acompanhar as propriedades e preparar os associados para mudanças no mercado.

“O produtor que está dentro de uma entidade bem gerida possui um potencial maior para conseguir benefícios e conhecimento.”

Indicação Geográfica pode agregar valor

Ao final da entrevista, Fábio Porto chamou atenção para a Indicação Geográfica existente na região da Zona da Mata de Rondônia.

Segundo ele, o selo representa uma oportunidade para reconhecer a origem do café, diferenciar o produto e ampliar seu valor comercial. Apesar disso, muitos produtores e agroindústrias ainda não sabem como utilizar a identificação.

O entrevistado defendeu a ampliação das informações sobre os critérios, responsáveis e procedimentos necessários para que os produtores possam acessar a Indicação Geográfica.

“Se existe uma Indicação Geográfica que agrega valor ao produto, precisamos mostrar como o produtor pode utilizar esse selo.”

Além de fortalecer a identidade territorial, a IG pode abrir novas oportunidades comerciais e contribuir para a presença do café rondoniense em mercados especializados.

Informação para produzir com segurança

Encerrando sua participação, Fábio colocou as estruturas de Agricultura e Meio Ambiente de Alto Alegre dos Parecis à disposição dos produtores do município e de localidades vizinhas.

Ele convidou agricultores, técnicos e gestores a conhecerem os viveiros e as experiências desenvolvidas no município.

“Alto Alegre está de portas abertas para os produtores que quiserem conhecer nossos viveiros e nossa genética.”

A entrevista mostrou que a consolidação da cafeicultura rondoniense não depende apenas do aumento da produtividade. O futuro da atividade passa pela qualidade das mudas, rastreabilidade, segurança hídrica, regularização ambiental, diversidade genética, inovação e organização coletiva.

Ao promover esse debate, o RuralCast reforça seu compromisso de levar informações técnicas e acessíveis aos agricultores, valorizando profissionais que trabalham para aproximar produção, conhecimento científico e sustentabilidade.


Assista ao episódio completo do RuralCast:




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