Cuidar dos filhos, acompanhar familiares, trabalhar, estudar e administrar a casa. Em meio a tantas responsabilidades, quando a mulher encontra espaço para cuidar de si? A pergunta está na origem de uma iniciativa da Universidade Federal de Rondônia, em Rolim de Moura, apresentada pela professora doutora Bianca Santos Chisté e pela médica mastologista Samela Oliveira Santos durante participação no RolimCast.
Conduzida por Angélica Cristina, a entrevista do podcast do Grupo Amazun, exibido no canal Olá Rondônia, ampliou o debate do Outubro Rosa. Além da saúde das mamas, as convidadas discutiram sobrecarga, autonomia, apoio e o compromisso da universidade com a comunidade.
Coordenadora do evento, Bianca explicou que a proposta surgiu de conversas no curso de Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências da Natureza. A presença expressiva de mulheres nesses espaços evidenciou uma preocupação: muitas conciliam a universidade com outras duas jornadas.
“Fazer um curso superior, estudar, na verdade, para a mulher, às vezes é uma terceira jornada”, afirmou.
A observação levou à pergunta que orienta a iniciativa: como promover o cuidado de si em uma rotina ocupada pelas necessidades de outras pessoas?
Universidade como espaço de encontro com a comunidade
Para Bianca, a universidade tem responsabilidade na circulação do conhecimento e na construção de oportunidades de diálogo. A proposta do evento é aproximar profissionais, estudantes e moradores, permitindo que a discussão sobre saúde alcance públicos além da sala de aula.
“Ela tem um compromisso social”, destacou a professora ao explicar o papel da instituição.
Durante a entrevista, Bianca reforçou que a programação foi pensada para a comunidade em geral, com atividades que articulam informação, sensibilização e experiências relacionadas ao corpo.
A professora, que atua na Pedagogia e tem formação de doutorado em Educação Matemática, apresentou o cuidado com as mulheres como uma questão que também atravessa o ensino e a permanência na universidade. Quem estuda carrega para o ambiente acadêmico as condições de vida, as responsabilidades e os limites de sua rotina.
“A Hora da Estrela” inspira reflexão sobre protagonismo
A literatura também integra a proposta. Samela explicou que sua palestra, intitulada “A Hora da Estrela”, utiliza a referência à obra de Clarice Lispector para discutir o protagonismo das mulheres na própria vida.
A intenção é combinar informação sobre câncer de mama com uma abordagem sensível sobre identidade, escolhas e atenção às próprias necessidades.
“Esse cuidado ele não pode ser feito só no Outubro Rosa”, afirmou a mastologista.
Na avaliação da médica, reconhecer-se como alguém que merece cuidado envolve mais do que organizar consultas. Também significa perceber limites, recuperar interesses e encontrar espaço para atividades que produzam bem-estar.
A discussão trouxe uma pergunta para além dos exames: quais desejos e experiências foram abandonados porque todas as outras responsabilidades pareciam mais urgentes?
A força que também precisa de apoio
Um dos momentos centrais da entrevista ocorreu quando Bianca analisou a expectativa de que as mulheres consigam resolver tudo. Segundo ela, a identidade de cuidadora pode dificultar tanto a atenção às próprias necessidades quanto a aceitação de ajuda.
“Você nem se permite ser cuidada”, observou.
A professora relatou uma experiência familiar para refletir sobre a demora em dar continuidade ao atendimento e sobre a importância de compreender a gravidade de uma situação. Ao mencionar o episódio, também reconheceu que o acesso à informação em outros períodos era diferente do atual.
Sua reflexão reuniu dois movimentos: ter autonomia para procurar ajuda e permitir que outras pessoas participem do cuidado.
“A gente precisa se deixar ser cuidada”, afirmou.
A conversa mostrou que valorizar a autonomia feminina também exige discutir as condições em que as decisões são tomadas. Tempo disponível, orientação, acesso aos serviços e presença de uma rede de apoio interferem na possibilidade de buscar atendimento.
O valor de uma mulher ultrapassa aquilo que ela faz pelos outros
Samela trouxe à entrevista experiências de sua formação e atuação em oncologia para questionar a associação entre o valor das mulheres e sua capacidade de servir.
Ao falar sobre pacientes em tratamento, relatou situações de abandono e observou a presença frequente de mulheres acompanhando familiares nos serviços de saúde.
A médica defendeu que o acolhimento permaneça quando alguém adoece e passa a precisar de ajuda nas tarefas que antes realizava. O tratamento modifica rotinas, e a responsabilidade pelo cuidado precisa ser compartilhada.
“Nós somos uma comunidade. A gente precisa se proteger, se cuidar”, afirmou.
A fala aproximou o tema do cotidiano das famílias, dos ambientes de trabalho e das relações sociais. A atenção à saúde depende também de relações nas quais seja possível pedir apoio e ter necessidades reconhecidas.
Programação reúne palestra, vivência corporal e debate
Segundo a programação anunciada pelas convidadas no RolimCast, as atividades estão previstas para ocorrer entre 27 e 29 de outubro de 2026.
A abertura, no dia 27, às 19h30, contará com a palestra da mastologista Samela Oliveira Santos. A organização informou que a apresentação terá transmissão pelo canal do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências da Natureza no YouTube.
Para o dia 28, às 10h, foi anunciada uma vivência corporal em espaço parceiro, voltada ao conhecimento e à percepção do próprio corpo.
Na quinta-feira, dia 29, às 14h, a programação prevê uma atividade na universidade com orientação sobre observação e palpação das mamas. A proposta, apresentada na entrevista, é proporcionar um momento de atenção ao corpo e esclarecimento de dúvidas.
No período noturno, está prevista uma mesa de conversa com participação de profissionais de fisioterapia e nutrição e de uma mulher em tratamento oncológico, sob mediação da mastologista.
Ao explicar a abordagem da nutrição, Bianca destacou a intenção de discutir a alimentação como forma de nutrir e cuidar do corpo, ampliando uma conversa frequentemente concentrada no emagrecimento.
A presença de uma paciente pretende acrescentar a experiência de quem vive o tratamento e encontra diferentes maneiras de cuidar de si durante esse percurso.
Informação que precisa chegar a mais pessoas
Bianca informou que a participação nas atividades gerais está aberta à comunidade e que as pessoas interessadas em certificado devem buscar as orientações de inscrição nos canais da universidade.
A proposta apresentada no RolimCast é fazer do Outubro Rosa uma oportunidade para aproximar conhecimento e vida cotidiana. Ao reunir ciência, literatura, movimento, alimentação e relatos pessoais, a iniciativa busca estimular uma conversa em que as mulheres possam reconhecer suas necessidades e encontrar apoio para atendê-las.
Para Samela, compartilhar informação com a região onde cresceu dá um significado especial à participação no evento. Para Bianca, abrir esse diálogo expressa o compromisso social da universidade.
O episódio completo do RolimCast reúne essas reflexões sob apresentação de Angélica Cristina, no canal Olá Rondônia, do Grupo Amazun.
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