Uma história que atravessa fronteiras em busca do conhecimento
A decisão de deixar Moçambique, na África, e atravessar o oceano para estudar em Rondônia representa muito mais do que uma mudança geográfica. Para o mestrando Orlando Alberto Buque, a experiência significa uma oportunidade de ampliar conhecimentos, conhecer diferentes realidades agrícolas e contribuir para o desenvolvimento sustentável das comunidades rurais.
A trajetória foi apresentada durante a cobertura especial do RuralCast, do Grupo Amazun, realizada na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Cacoal, durante a segunda edição do Agro&Cont 2026, nos dias 30 e 31 de outubro.
A entrevista foi conduzida pela mestranda Mileni Cassimiro, integrante da primeira turma do PPGAgro, que desenvolve uma pesquisa relacionada à produção de cacau em Rondônia.
Durante a conversa, Orlando contou que é graduado em Agronegócios pela Universidade Eduardo Mondlane, onde estudou na Escola Superior de Negócios e Empreendedorismo, em Chibuto, no sul de Moçambique.
Seu interesse pela pós-graduação surgiu do desejo de aprofundar os conhecimentos em gestão, desenvolvimento rural e sustentabilidade.
Da frustração à conquista de uma oportunidade internacional
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi o relato sobre as dificuldades enfrentadas antes de conquistar a vaga no mestrado.
Orlando explicou que havia participado de outra seleção de pós-graduação, mas não conseguiu aprovação. A experiência provocou frustração, porém também o incentivou a rever estratégias e continuar procurando oportunidades acadêmicas.
"Desistir não faz sentido. Sou responsável pelo meu futuro."
A partir dessa decisão, passou a pesquisar editais, acompanhar universidades brasileiras e procurar programas relacionados à sua formação.
Foi pelas redes sociais que encontrou informações sobre o PPGAgro da UNIR.
Ao conhecer a proposta de integrar gestão do agronegócio e sustentabilidade, percebeu que havia encontrado uma oportunidade alinhada aos seus objetivos profissionais.
"Eu encontrei o Agro e Agro me encontrou."
A frase resume o significado da oportunidade para o estudante, que transformou uma tentativa anterior sem sucesso em aprendizado para uma nova etapa de sua formação.
Agricultura familiar: o que Brasil e Moçambique podem aprender um com o outro?
Um dos principais temas abordados foi a diferença entre a agricultura familiar praticada em determinadas regiões brasileiras e a realidade encontrada em Moçambique.
Segundo Orlando, as visitas técnicas realizadas durante o mestrado permitiram conhecer produtores familiares que trabalham em áreas maiores e com diferentes níveis de organização produtiva.
Ele explicou que, em seu contexto de origem, são comuns propriedades familiares de menor extensão, frequentemente relacionadas à produção para subsistência.
A comparação despertou seu interesse em compreender como a organização, a tecnologia, a comercialização e o acesso ao conhecimento podem contribuir para ampliar a capacidade produtiva das famílias rurais.
O mestrando desenvolve uma pesquisa voltada ao associativismo e às formas de organização social no campo, buscando comparar experiências brasileiras e moçambicanas.
A proposta dá continuidade a interesses acadêmicos desenvolvidos ainda na graduação e pretende identificar práticas que possam contribuir para o fortalecimento das comunidades agrícolas em Moçambique.
A discussão também levanta uma questão importante: aumentar a produtividade não significa, necessariamente, melhorar as condições de vida no campo. Para que o desenvolvimento seja sustentável, é preciso considerar organização coletiva, acesso a mercados, distribuição de resultados e preservação dos recursos naturais.
Sustentabilidade e agronegócio precisam caminhar juntos
Outro ponto relevante da entrevista foi a relação entre produção agropecuária e sustentabilidade.
Orlando observou que o agronegócio frequentemente aparece associado a debates sobre desmatamento, poluição e utilização dos recursos naturais.
Entretanto, destacou a importância de uma formação acadêmica que reúna gestão e sustentabilidade, permitindo analisar a produção rural de maneira mais ampla.
Nesse contexto, o PPGAgro oferece a oportunidade de discutir como aumentar a eficiência produtiva sem desconsiderar a responsabilidade ambiental e as necessidades das futuras gerações.
Para o mestrando, a combinação entre aulas, pesquisa e experiências práticas nas propriedades rurais é um diferencial importante.
Os desafios de estudar em outro país
A adaptação cultural também teve espaço na entrevista.
Embora Brasil e Moçambique tenham a língua portuguesa como idioma oficial, Orlando relatou dificuldades para compreender determinadas expressões, pronúncias e exemplos utilizados nas aulas.
O estudante também precisou se adaptar ao fuso horário, à nova rotina acadêmica e a contextos sociais e econômicos diferentes daqueles que conhecia.
A distância da família foi outro desafio, especialmente porque chegou ao Brasil sem familiares ou uma rede de convivência formada.
Apesar disso, destacou o acolhimento recebido de colegas, professores e integrantes da coordenação do programa.
Para ele, esse apoio foi fundamental para superar as inseguranças iniciais e construir novas relações pessoais e acadêmicas.
A experiência evidencia a importância de políticas de acolhimento e integração de estudantes internacionais nas universidades públicas brasileiras.
A informação também pode transformar destinos
Ao falar sobre oportunidades de educação, Orlando chamou atenção para um desafio que ultrapassa as fronteiras: a dificuldade de acesso a informações sobre processos seletivos e programas de pós-graduação.
Segundo ele, muitos estudantes moçambicanos desejam continuar a formação acadêmica, mas enfrentam dificuldades para localizar editais, compreender exigências e organizar a documentação necessária.
"Uma das coisas que são dificuldades para nós é acesso à informação."
Como forma de contribuir, o mestrando contou que procura compartilhar oportunidades acadêmicas e orientar pessoas interessadas em ingressar em programas de mestrado.
Também ressaltou a importância da participação em eventos científicos e atividades de pesquisa durante a graduação.
Essas experiências, segundo seu relato, ajudam a preparar os estudantes para seleções acadêmicas e para os desafios da produção científica.
Uma mensagem de coragem para quem deseja transformar o próprio futuro
Na parte final da entrevista, Orlando compartilhou uma reflexão sobre sonhos, limitações financeiras e perseverança.
Ele revelou que enfrentou dificuldades para custear a viagem ao Brasil e conseguiu adquirir a passagem poucos dias antes da data prevista para o deslocamento.
A experiência reforçou sua convicção de que é necessário buscar caminhos para realizar os próprios objetivos, mesmo diante das incertezas.
"Nós somos os principais atores da nossa história. Se nós não colocarmos mão na massa, ninguém vai colocar a mão na massa para nós."
O estudante deixou uma mensagem de incentivo aos jovens que pretendem continuar os estudos, desenvolver pesquisas ou buscar oportunidades fora de suas cidades e países.
"Não tenha medo de arriscar."
A história apresentada no RuralCast demonstra como a educação pode conectar realidades diferentes e criar oportunidades de cooperação científica internacional.
Mais do que conquistar um título acadêmico, Orlando busca transformar conhecimento em contribuição concreta para o desenvolvimento rural de Moçambique.
A experiência também reforça a importância da UNIR e do PPGAgro na formação de pesquisadores capazes de aproximar ciência, sustentabilidade e os desafios enfrentados pelos produtores rurais.
A entrevista integra a cobertura especial do Grupo Amazun durante o Agro&Cont 2026, realizado em Cacoal, com conteúdos disponibilizados por meio do RuralCast e do canal Olá Rondônia no YouTube.